A NAVALHA DE OCKHAM

 

 

Todos conhecem o postulado da Navalha de Ockham – mas quem nunca ouviu falar vai ter a sorte de conferir aqui, em primeira mão, e sem os vícios do didatismo acadêmico-filosófico, a verdade por trás da navalha. Ou do postulado, o que é mais seguro.

 

O princípio reza mais ou menos que “os conceitos para se chegar à Verdade não devem ser numerosos: a economia de pressupostos é mais vantajosa”. Puro pão-durismo desse conhecido unha-de-fome que foi Guilherme de Ockham (eu ia colocar um link aqui, mas os herdeiros me proibiram, para não gastar bytes à toa. A coisa é hereditária...).

 

Primeiro que ninguém até hoje entendeu direito por que o tal postulado leva o nome de “navalha”. Porque corta os excessos ontológicos? Nada disso. Na verdade Ockham, além de filósofo, foi um barbeiro sovina, que usava a mesma espuma em mais de um freguês para não desperdiçar, misturava água potável na água de colônia para ela durar mais – e assim por diante. Um belo dia...

 

...Um belo dia apareceu na barbearia de Ockham um velho filósofo agostiniano, que ao fim do serviço disse, tranqüilamente, que não iria pagar. À reação estupefata do barbeiro, o freguês justificou-se:

 

-- A Verdade não pode ser captada com os sentidos habituais de percepção. Só pela convicção íntima e pessoal propiciada pela Fé. Sendo assim, a sensação que eu tenho de que tu cortaste meu cabelo é falsa – não levo a menor fé em teu trabalho. Portanto, o corte não aconteceu, e não pagarei por ele.

 

Ockham, após pensar por pouquíssimos instantes (até nisso era unha-de-fome), afiou a navalha e, aproximando-a do rosto do freguês:

 

-- Se a percepção pelos sentidos é falsa, posso tranqüilamente cortar tua orelha, pois tudo o que ouves é ilusório. Ou poderia incontinenti extirpar-te o nariz, visto que o que o olfato te proporciona é falso. Ou mesmo teus olhos eu poderia arrancar fora, já que tua visão te passa registros irreais.

 

-- Tanto faz – obtemperou o incrivelmente tranqüilo freguês, agora já nem tão tranqüilo assim. – Eu recorreria às autoridades em busca de reparação. Ignorantes como são, essas mesmas autoridades, não conhecendo os fundamentos escolásticos nem tampouco a essência abstrata da Verdade, dariam por muito reais as feridas que infligir-me-ias, e, além de prender-te, obrigar-te-iam a ressarcir-me.

 

Concluindo que estava diante de um pão-duro tão aguerrido quanto ele, Ockham não viu outra saída. Encostou a navalha no pescoço do velhaco e:

 

-- Estás correto. Eu poderia também cortar-te a garganta e, uma vez morto, não terias como recorrer às autoridades. Eu enterrar-te-ia nos fundos de minha barbearia e, partindo do princípio que norteia nossa conversa, daria o caso por ilusório e nenhum remorso por homicídio abater-me-ia.

 

O freguês, agora nada tranqüilo e já suando frio, esperou alguns instantes, apalpou o embornal e saiu-se com uma admirável constatação filosófica:

 

 -- Presumo que aceites vale-ceia...

 

Passou à História, portanto, a analogia conhecida por Navalha de Ockham: fiado só amanhã. E não adianta o leitor vir dizer que Guilherme de Ockham era um monge que não deixou descendentes, e que como religioso nunca exerceu a profissão de barbeiro. Bobagem. Vá por mim: em vez de ficar comprando biografias de filósofos, siga o postulado ockhamiano, economize e vá fazer coisa mais importante. Como cortar o cabelo.

 



Escrito por Nelson Moraes às 11h16
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